sábado, 15 de junho de 2013

CACHOEIRA CONTINUA REINANDO

Em uma rua da periferia de Valparaíso (GO), distante 30 quilômetros da capital do País, uma casa de pouco mais de 100 metros quadrados, com portas e janelas lacradas por esquadrias de ferro, passa despercebida em meio a residências simples e à poeira que se acumula pela falta de asfalto. Na porta, um homem sentado em um banco de plástico analisa o movimento e dá uma batida no portão velho como sinal de permissão para abri-lo. O local é um ponto de jogatina e de bingos ilegais que continua desafiando a polícia e colocando em xeque a estrutura do Estado. Lá dentro, 22 máquinas de caça-níqueis estavam à disposição dos 13 jogadores que se enfileiravam em uma sala com pouca luz e um silêncio opressor na noite da quarta-feira 12. Os cinco funcionários que trabalhavam na área interna conversavam discretamente sobre uma possível mudança de endereço e combinavam de telefonar para os clientes mais cativos informando o novo destino, que seria o terceiro em cinco meses. Delegados envolvidos no combate aos jogos ilegais são unânimes em afirmar que casas como essa ainda são comandadas pelo contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira. Condenado a 39 anos e oito meses de prisão por corrupção ativa, peculato, violação de sigilo e formação de quadrilha, além de indicado como comandante da máfia dos caça-níqueis na região Centro-Oeste, Cachoeira é considerado por policiais um contraventor na ativa, que continua a acumular poder e a contar com as ramificações políticas do esquema de jogos ilegais montado por ele.
De acordo com o delegado Alexandre Lourenço, da Delegacia de Combate ao Crime Organizado de Goiás, todas as investigações sobre a propriedade das casas de bingo fechadas nos últimos meses levaram aos mesmos contraventores: os integrantes da família de José Olímpio Queiroga. Queiroga é apontado na Operação Monte Carlo, da Polícia Federal, como tesoureiro de Cachoeira e responsável por viabilizar a abertura dos locais utilizados pelo grupo para explorar o jogo. “Posso dizer que essas casas que continuam operando são comandadas pelo grupo do Cachoeira. Nossas investigações levam sempre às mesmas pessoas e à pirâmide da organização denunciada durante a Operação Monte Carlo. A verdade é que Cachoeira nunca parou. Pior: será difícil pará-lo definitivamente”, lamenta o delegado, que tenta criar uma força-tarefa para possibilitar uma ação conjunta de combate aos jogos ilegais.
No último mês, seis pessoas avisaram sobre o funcionamento de casas de jogos ilegais espalhadas em diversas cidades do entorno de Brasília. ISTOÉ encontrou uma delas em Formosa (GO), distante 100 quilômetros da capital. Com uma estrutura bem mais modesta do que a casa que abrigava as máquinas em Valparaíso, a segurança é menos reforçada e a clientela é composta basicamente por idosos. Há três mulheres se revezando no atendimento cordial aos clientes e apenas um homem com a responsabilidade de interrogar visitantes. “Esses funcionários que atendem raramente encontram os verdadeiros chefes. Muitas vezes, não sabem mesmo quem eles são. Por isso, documentar quem está no topo da pirâmide é o grande desafio”, diz o delegado-adjunto da Delegacia de Repressão ao Crime Organizado do Distrito Federal, Fernando Cocito. Ele comemora o fato de 45 casas de bingos terem sido fechadas desde fevereiro do ano passado, quando Cachoeira foi detido pela primeira vez.
A estrutura do esquema de jogos ilegais indica a existência de novos personagens. Um deles é Paulinho Cachoeira, irmão de Carlinhos, que tenta alçar voo solo na contravenção. Pelo menos três casas fechadas pela polícia nos últimos cinco meses apontavam que ele era o comandante dos grupos. Sempre que é chamado a depor, Paulinho diz que monta a própria estrutura e que não depende do irmão. “Meu cliente está recolhido com a família, não chefia nada disso. Ele não comanda nada”, diz o advogado de Cachoeira, Nabor Bulhões. Os policiais, porém, não consideram verdadeira a versão, uma vez que manter e reestruturar os grupos depois de cada ofensiva é considerado um trabalho que exige experiência, habilidade e, claro, muita influência política, requisitos que Cachoeira preenche.
                                                             
Condenado a 39 anos e oito meses de prisão, Cachoeira opera
por meio do tesoureiro José Olímpio Queiroga.

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