quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

COMO GANHAR MUITO DINHEIRO, SEM FAZER NADA

OÃO FELLET
Colaboração para a Folha de S.Paulo

A cartilha dos grandes empresários diz que, para se dar bem nos negócios, é fundamental estar atento às mudanças na sociedade, empregar com eficiência a propaganda, estudar o público-alvo, cuidar bem dos funcionários e vigiar a concorrência.

Pois essas regras também valem para os que desejam abrir a própria igreja evangélica, segundo um curso oferecido pelo Seminário Brasileiro de Teologia (SBTe).

Uma frase presente na apostila do "Curso de Formação de Pastor" dá o tom do seu conteúdo: "A igreja é uma empresa, e uma empresa difícil de ser conduzida, porque o seu estoque são almas". O curso convoca pastores a uma adaptação aos novos tempos: "As igrejas que não seguirem a cultura dos povos tendem a ficar vazias".

A proposta é criticada por teóricos evangélicos, que vêem formação muito superficial em 90 dias. A preparação do pastor no curso tradicional, reconhecido pelos protestantes históricos, costuma chegar a cinco anos. Esses programas com maior duração são avalizados por igrejas seguidas por 11,1% da população em 2002, segundo pesquisa do Eseb (Estudo Eleitoral Brasileiro), número quatro vezes maior do que em 1980.

Empreendedor

O curso recomenda que o pastor seja "empreendedor e capaz de liderar com visão global".

Para aproveitar esse crescimento, o curso lista atitudes que devem ser tomadas pelo pastor. Antes de abrir uma igreja, deve estudar a região e o público-alvo. Se o local for pobre, ajudam a atrair gente a distribuição de lanches e o sorteio de cestas básicas.

Para ser eficiente, ele é aconselhado a se alimentar bem e a se exercitar. Quando tiver de ministrar por muito tempo, deve evitar o sexo nos quatro dias anteriores.

Outro fator determinante para o sucesso é pregar conforme a vontade do público. Em geral, diz o curso, pessoas mais pobres tendem a gostar de "ver coisas sobrenaturais" (como sessões de exorcismo) e ouvir o pastor falar em línguas estranhas (glossolalia).

"O curso ensina recursos que uma empresa moderna usa para se manter competitiva", diz o coordenador do MBA de Marketing da FIA (Fundação Instituto de Administração), Dilson Gabriel dos Santos.

Para o professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo Antônio Sauaia, o curso ensina uma técnica usada por empresas de produtos de consumo, que atraem o consumidor por meio de vendedores que vivem no mesmo bairro dele.

Administração eclesiástica

A apostila é dividida em cinco módulos. Os quatro primeiros tratam da legislação sobre a prática religiosa (como obter subvenções do poder público, por exemplo) e como convencer os fiéis a pagar o dízimo. O quinto e maior é intitulado "Administração Eclesiástica". Nele, são indicados "projetos para multiplicar a quantidade de membros, templos e de caixa da igreja a cada 90 dias".

O curso pode ser encomendado no site www.cursodepastor. com.br ou por telefone, custa R$ 450 e deve ser feito por correspondência em 90 dias.

Ao seu final, o aspirante a pastor deve enviar por correio à instituição, que tem sede em Ituiutaba (MG), as respostas a um questionário. Se aprovado, ganha um diploma e uma carteirinha "para as diferentes denominações de igrejas evangélicas".

O pastor Omar Silva da Costa, 49, é o criador deste e de outros 17 cursos por correspondência também oferecidos pela internet. Os mais caros, chamados de "Bacharelado em Teologia Eclesiástica", "Mestrado em Bíblia" e "Doutorado em Divindade", custam, respectivamente, R$ 750, R$ 1.050 e R$ 1.350. Duram 90 dias e dão direito a carteirinha e diploma.

"Decidi oferecer os cursos por correspondência, porque muita gente não tem condições de pagar escolas caras." Segundo Costa, o curso, oferecido desde fevereiro deste ano, já foi vendido a mais de 500 pessoas --se o número estiver certo, as vendas já renderam, ao menos, R$ 225 mil.

A procura tem sido tão boa que, no curso, ele prevê: "Em pouco tempo vai haver nas faculdades cursos de administração de igreja, como já há de administração hospitalar".

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