Pela primeira vez em 16 anos de poder o governador Marconi Perillo
(PSDB), candidato à reeleição ao governo estadual, apresenta uma postura
defensiva em relação a campanhas anteriores. O motivo principal são os
problemas administrativos que explodiram bem no início da campanha
eleitoral (veja o quadro). Já são vários os fronts que a oposição têm
para atacar o governo, muitas dessas celeumas originadas pelo próprio
governo. Os oposicionistas fazem o seu papel e Marconi precisa se
desdobrar para se defender.
Para complicar a maré baixa do governador tucano, ao contrário de
eleições passadas, neste ano a oposição vem encontrando o tom para
acertar o governo. Esse panorama não foi visto nas vezes em que Marconi
Perillo se elegeu ou reelegeu anteriormente. Em 1998 ele era a oposição a
um longo período de poder do PMDB em Goiás, algo que gera desgaste
natural a qualquer governante ou partido (exatamente o que Marconi
enfrenta neste ano). Em 2002, ele se aproveitou da ilusão da oposição
que acreditava erroneamente que a derrota de 1998 havia sido um acidente
de percurso e que voltaria facilmente ao poder sem fazer grandes
críticas ao governo tucano.
Em 2006, com uma avaliação bem positiva,
principalmente no interior, Marconi conseguiu se eleger ao Senado e
ainda conseguiu fazer seu sucessor, seu então vice Alcides Rodrigues
(ex-PP). Na oportunidade, a campanha do ex-candidato Maguito Vilela
(PMDB) preferiu evitar as críticas ao governo Marconi e perdeu prestígio
durante a campanha. Em 2010, rompido com Alcides, ele encarnou a
oposição e, com muitas críticas ao governo que ajudou a eleger,
conseguiu ser eleito pela terceira vez ao governo do Estado.
Em 2014,
porém, a situação se mostra diferente. A facilidade que o governador
encontrou em eleições passadas, ora diante de uma oposição fraca, ora
diante da estabilidade de sua administração, neste ano não tem
encontrado. E não tem encontrado por uma soma de fatores.
O momento
ruim atravessado pela gestão do Estado tem sido bem explorado pela
oposição nas eleições deste ano, o que tem gerado certo desgaste na
coordenação da campanha tucana, que sempre tem corrido para apagar
incêndios, ao invés de dar os rumos da sucessão.
Por não conseguir
pautar a campanha, enfrentando forte rejeição junto ao eleitor, segundo
as pesquisas eleitorais, e sem ter conseguido colher os frutos da agenda
positiva que tentou criar antes da campanha – algumas obras como o
Centro de Excelência do Esporte, o Credeq de Aparecida de Goiânia e o
Hugo 2, por exemplo, não foram finalizadas –, Marconi tem evitado
campanha em terreno aberto, participando apenas de inaugurações de
comitês de deputados aliados e encontros em ambientes fechados (leia
matéria abaixo).
Problemas
O inferno astral de Marconi Perillo
começou quando o ex-governador e candidato ao governo Iris Rezende
(PMDB) anunciou o deputado federal Ronaldo Caiado (DEM) como candidato
ao Senado em sua chapa, bem como o também deputado federal Armando
Vergílio (SDD) como vice-governador. Ex-aliados de Marconi Perillo, a
entrada de ambos na oposição demonstrou que a base aliada não estava
mais tão unida como em anos anteriores.
Juntou-se a isso a tentativa
dos insatisfeitos PR e PTB de modificarem a composição da chapa
majoritária, com a indicação da deputada federal Magda Moffato (PR) como
pré-candidata a vice, na mesma semana em que seria realizada a
convenção da base governista, o que exigiu interferência superior no
processo e gerou uma crise interna no PP.
Em sua primeira fala como
candidato ao Senado pela chapa oposicionista, Ronaldo Caiado demonstrou
que seria o maior crítico da gestão de Marconi. Ele acusou de prefeitos
da oposição de apoiarem o governador por medo de perderem concessões e
obras em seus municípios.
Caiado também incomodou a base governista
durante a inauguração do comitê central da campanha. Durante o evento, o
democrata sugeriu a existência de um “Caixa 2” na campanha da base
aliada que seria financiado com a troca de placas obrigatória de
automóveis e motocicletas em Goiás, para inserção de um novo modelo com
chip. A Segurança Pública foi outro problema enfrentado por Marconi, bem
como problemas nas áreas de Cultura, Fazenda, Celg e Ipasgo (veja mais
no quadro).
Tudo isso fez com que o governo de Marconi virasse alvo
de toda a oposição. As críticas vêm de todos os lados e tomam bom tempo
do governador em discursos e encontros. Os problemas, porém, criados por
sua própria administração, incomodam o governador, que mudou sua
postura em relação ao que vinham divulgando seus coordenadores, de que
sua campanha seria propositiva. Tudo reflexo do grande desgaste que
enfrenta nestes primeiros momentos de campanha.
Críticas forçam contra-ataque do governador
Sendo alvo de ataques e críticas por parte da oposição, Marconi
Perillo deixou de lado o discurso propositivo, defendido por ele antes
do início da campanha, para aumentar o tom e criticar as ações da
oposição e classificar muitas vezes de oportunistas e demagogas as
críticas direcionadas a ele e a seu governo.
Além disso, o tucano tem
mantido a campanha focada em encontros em ambientes fechados ou então
em inaugurações de comitês de candidatos a deputado federal e estadual
aliados. Uma mudança já prevista na campanha será a adoção das
tradicionais carreatas. Marconi adiantou o uso desse tipo de ação, que
não se iniciaria agora.
O seu discurso tem sido formatado com o
intuito de desqualificar adversários e suas críticas. É comum dizer que
as críticas atingem instituições e funcionários estaduais como vem
ocorrendo em relação à Segurança Pública.
“Eles torcem por um Estado
cada vez pior por conta de interesses mesquinhos eleitoreiros e
pessoais. Todo mês comemoram o número de homicídios. Enquanto eles
torcem contra milhares de goianos, nós estamos aqui, trabalhando duro e
promovendo avanços em diversas áreas", disse o tucano em discurso na
inauguração do comitê do candidato a deputado federal Alexandre Baldy
(PSDB).
Ainda neste discurso, Marconi classificou as críticas de
demagogas e sugeriu que os oposicionistas não tem amor por Goiás, em uma
clara alusão à chapa peemedebista. “Nós precisamos dar um basta nestas
críticas eleitoreiras, nestes discursos demagogos e debates enviesados.
Eles não têm amor por Goiás. O que eles dizem amar são apenas seus
projetos pessoais”, criticou.
A oposição respondeu com Ronaldo
Caiado. O candidato ao Senado pelo DEM apresentou números com os quais
rebatem o investimento estadual em Segurança Pública, alardeado por
Marconi Perillo. Pelo twitter, o deputado federal criticou a redução nos
quadros das Polícias Militar e Civil em 16 anos.
“Em 1998, a
Polícia Militar tinha 12.200 policiais, enquanto que a Polícia Civil
tinha 6.595. Dezesseis anos depois a PM tem 11.600 e a Civil 3.140, isso
enquanto a população Goiânia cresceu mais de 35%. Em 16 anos, o Brasil
teve aumento de 12% na violência, enquanto Goiás teve crescimento de
mais de 230%. Já imaginou o que daria para ser feito em segurança
pública com os R$ 518 milhões gastos em propaganda pelo governo
estadual?”, disse Caiado na quinta, 7. (F. P.)
Desgastes enfrentados pelo governador de goiás
Segurança Pública
Mês de junho foi o mês mais violento da história de Goiânia. Ao todo,
80 pessoas foram assassinadas. O segundo mês mais violento também já
pertencia à gestão de Marconi Perillo: em dezembro de 2013, 65 pessoas
haviam sido assassinadas na capital. Goiás passou de 10º a 4º Estado
mais violento do país, segundo números do Mapa da Violência 2014, do
Centro de Estudos Latino-americanos (Cebela). Além disso, desde o início
do ano, 45 mulheres foram assassinadas em Goiânia. A falta de ações por
parte do governo gerou críticas por parte da oposição.
Detran
Durante a inauguração do comitê do candidato ao governo pelo PMDB,
Iris Rezende (PMDB), o deputado federal e candidato ao Senado Ronaldo
Caiado (DEM) denunciou “Caixa 2” no Detran, na instalação de chip
eletrônico em placas de motos e carros. O democrata disse que o ganho
que o governo estadual teria com a cobrança do procedimento seria de R$
480 milhões. “Algo em torno de R$ 280 milhões iria para o Caixa 2 de
campanha”, denunciou. No dia seguinte o procedimento foi suspenso pelo
Detran e a base aliada disse que iria interpelar Caiado na Justiça.
Ipasgo
Depois de anunciar aumento de 9,5% nas mensalidades do Instituto de
Assistência dos Servidores Públicos do Estado de Goiás (Ipasgo), o
governo estadual teve que voltar atrás e cancelar o reajuste depois que
muitos servidores estaduais protestaram e questionaram o valor do
aumento, que seria descontado já no pagamento do salário referente ao
mês de julho. Os usuários consideraram o reajuste injusto já que foi
acima do valor do reajuste da data-base dos servidores públicos do
Estado.
Fundo de Cultura
No final de julho, artistas goianos denunciaram que a Secult não
repassaria os R$ 13 milhões relativos ao pagamento do Fundo Estadual de
Cultura que beneficiaria 270 projetos culturais. O então secretário
estadual de Cultura, Gilvane Felipe, disse que o valor não havia sido
liberado pela secretaria da Fazenda, responsável pelo repasse. O
imbróglio culminou na saída de Felipe da pasta. Buscando acabar com a
crise, o secretário da Fazenda disse que realizaria o pagamento do
fundo, mas que o mesmo seria parcelado em cinco vezes até o final do
ano, o que gerou protestos de artistas em frente ao Palácio.
Empréstimos
O governo estadual realizou neste ano três pedidos de empréstimos a
órgãos diferentes como a Assembleia Legislativa, o Tribunal de Justiça
de Goiás e o Tribunal de Contas do Estado. O empréstimo solicitado ao
TCE foi no valor de R$ 25 milhões e serviria para “auxiliar no ajuste de
caixa do Tesouro Estadual”. O empréstimo está sendo questionado pelo
Ministério Público de Contas. Já o empréstimo solicitado TJ foi da ordem
de R$ 80 milhões e serviria para quitar o pagamento da folha salarial
de servidores estaduais. O pedido gerou críticas da oposição,
principalmente de Iris Rezende, o que culminou com a negativa do repasse
da parte do Judiciário.
Desmentido
O ex-prefeito de Anápolis e candidato ao governo pelo PT, Antônio
Gomide, rebateu, por meio de nota, as afirmações de Marconi Perillo em
entrevista à Rádio CBN, que disse que o número de homicídios em Goiás
vem caindo desde 2011. Gomide afirmou que em quatro anos houve aumento
de 56% nos assassinatos. Além disso, o petista acrescentou que há 16
anos, em 1998, quando foi eleito governador pela primeira vez, Goiás
estava na 18º posição no ranking de homicídios do Brasil e hoje estaria
quase na quarta colocação.
Celg
Considerada a pior companhia energética do Brasil segundo a Aneel, a
Celg foi responsável pelos maiores desgastes ao longo dos últimos anos
para o governo estadual. A crise enfrentada pela empresa fez com que o
governador buscasse ajuda no governo federal. A ideia é a federalização
da empresa que já estaria encaminhada junto à Eletrobrás, depois de
reunião de Marconi com a presidente Dilma Rousseff, ocorrida há três
semanas. A União teria 51% da empresa goiana e o Estado receberia
empréstimo de R$ 1,9 bilhão para aportar na companhia. Prato cheio para a
oposição, que sempre coloca o assunto em pauta.
Fonte: http://tribunadoplanalto.com.br